Uma Professora em Apuros

(Marici Bross)

 

                                                         

 Lina, jovem paulistana, professora primária, sempre foi dotada de uma vivacidade contagiante.  Era formada pela antiga Escola Normal Padre Anchieta, ou Escola Normal do Brás, onde seu pai era professor de psicologia.

 Descendia de uma família de professores onde sempre respirou “métodos e normas pedagógicas”. Sua vida como não podia deixar de ser seguiu o mesmo rumo, aos 17 anos estava com seu diploma de professora nas mãos. Estávamos nos idos dos anos 30, e ai começa vida de aventuras e onde como era próprio na época, prestou o concurso para professores e foi designada para uma escola rural em Santa Rita dos Palmares, interior de São Paulo.

 Lá vai nossa jovem para o interior paulista cheia de sonhos e projetos. Afinal era professora formada e iria provar a sua família e ao mundo que era a mais nova professora da família, seria eficiente e boa professora, seus sonhos começavam e sua vida era feliz. Pela 1ª vez viajava sozinha e saia da casa dos pais, quanta novidade, quanta realização!

 Seu pai e seus irmãos (oito ao todo) fizeram a comitiva  de despedida, uma festa, grande acontecimento para a família que se encaminhou toda lampeira à Estação da Luz.

Lina, não cabia em si de contente, estava animada e falava sem parar, era professora!

Todos reunidos na plataforma da estação e Lina de uma das janelas do trem acenava em despedida, era o centro das atenções. 

Um apito anunciava a partida e ao segundo, o trem inicia sua marcha.  Lina se acomoda em sua poltrona e segue para sua nova vida. Para o desconhecido, num estado de grande euforia.  Viajou muito e na manhã seguinte chegou a seu destino, onde o fazendeiro responsável pela Escola Rural, dentro de suas terras, a esperava com toda sua família; sua mulher e seis filhos, muito alvoroço, muita festa, chegará à professora, e de lá seguiram para a fazenda onde Lina passaria a morar e trabalhar.

 CONHECENDO A ESCOLA:- A escola composta de uma única sala, onde quatro fileiras de carteiras, uma mesa e uma cadeira, era todo o mobiliário. Estava localizada em meio a uma área, tipo mata onde as arvores frondosas, os frutos e as flores faziam o encanto do lugar completando com sons de pássaros e animais próprios da região. Lina, moça da cidade, ficou encantada e amedrontada ao mesmo tempo, pensou que lindo! Que encanto... mas...e os bichos? E cobras ? (morria de medo, delas) será que tem por aqui?

No dia seguinte foi apresentada a seus alunos daria aula da 1ª a 4ª série conjuntamente. Os alunos, dispostos em quatro filas de carteiras escolares sendo, cada fileira correspondente a uma série escolar. Logo ficou preocupada como dar matéria para quatro séries ao mesmo tempo e por um período de três horas diárias?

 No entanto, “era professora” e começou a fazer amizade com seus alunos e a tentar iniciar o ano letivo. 

Escrevia no quadro negro, perguntava o nome das crianças, contava fatos, ouvia relatos das crianças e começava a ficar a vontade e dona da situação

Sentou-se em sua cadeira, apoiou os braços em sua mesa e falava, ria e brincava com as crianças.  Eram crianças simpáticas e cordiais, pensava, enquanto seus alunos faziam seus deveres. 

Lina a tudo observava sorrindo e cheia de alegria, olhava para um, para outro, observava a sala, as carteiras, tudo enfim. Aqueles eram seus 1ºs. alunos. 

Neste vaguear com o olhar, notou algo pequeno e verdinho que parecia querer sair de uma das sacolas das crianças.  Deteve o olhar prestando atenção, seu coração acelerava, batia cada vez mais rápido, sua respiração ofegava enquanto seus olhos fixos na sacola se arregalavam mais e mais, ela pensava! O que será? Olhava e transpirava, o medo a invadia, e ela a cada segundo mais apavorada.

 Nisto levanta muito rápido, a cadeira cai ao chão e ela sai correndo numa louca disparada gritando... corram...corram... crianças, uma cobraaaaaaaa... 

Ela corria o mais que podia e as crianças corriam, atrás, dando muitas gargalhadas, até que finalmente a alcançaram. 

Lina, apavorada nada entendia, porquê as crianças riam tanto?  E ainda muito apavorada, ouviu as crianças que não paravam de rir, dizerem...Mas, fessora, é só uma cobra, ela emudeceu e com olhar inquisidor passeava pelo rosto sorridente das crianças, que acrescentaram, todas falando ao mesmo tempo

- É uma cobra, fessora.

    - Uma cobra verde.

    -  Num fais nada, num senhora.

    -  Senhora, tenha medo, não!

    -  Aqui tem montão, delas.

    -  Ela é brincalhona.

    -  Só gosta de se enrolar na perna da gente!

 Lina abriu os olhos, devagar, meio tonta, havia desmaiado, e viu seus alunos que a olhavam e a abanavam, com rostinhos preocupados e ansiosos, debruçados nela.

Pensou! É a cobra?

NEM QUERIA PERGUNTAR.

Sentou devagar e pensou. Gente! É isto o 1º dia de aula de uma professora da Capital?

Sorrindo em seguida, levantou, beijou as crianças e encerrou seu 1º dia em sua vida de professora. 

 

Profª Angelina Wagner da Cunha Miralhes

 

Este é um fato verídico acontecido com minha mãe em seu primeiro dia de aula, outros fatos foram acontecendo nos anos seguintes, com minha mãe, como professora de escola rural, os quais costumava a relatar em conversas que mantínhamos em “serões” muito nossos. Tenho saudades.

Marici Bross

SP, 22-01-03

 

 

 

 

 

 

 

 

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